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Artigo | O avanço do declínio das bacias de petróleo maduras

*Por Bruno Bressan Marcondes

Quem conhece de perto a indústria petrolífera brasileira sabe que o ciclo de vida de uma bacia não perdoa: ela sobe, atinge o pico e inexoravelmente declina. Campos e Santos fizeram, e ainda fazem, o Brasil grande no mapa do petróleo. Agora, é hora de olhar para o que vem a seguir. Não como promessa vaga, mas como necessidade estratégica urgente.

A Bacia de Campos foi o coração da produção offshore (em alto mar) brasileira por décadas. Há mais de 10 anos, no auge, ela produzia entre 1,5 e 1,8 milhão de barris de óleo equivalente por dia. Hoje, esse número caiu para menos da metade.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima a produção brasileira atingindo o pico de 5,3 milhões de barris (apenas petróleo) por dia, em 2030, e entrará em declínio a partir dali. Já o Ministério de Minas e Energia calcula que, sem novas fronteiras, esse volume cairá à metade, em 2040, e praticamente zerará, em 2050. Não estamos falando de ficção científica, estamos falando de uma conta já feita. Mesmo que essa não considere evoluções tecnológicas e econômicas, a lógica do setor é feita de reposição.

E a indústria de reposição de reservas precisa de novas áreas exploratórias. Como exemplo, a relação de reserva/produção da Petrobras mostra algo em torno de 11 a 13 anos no ritmo atual de extração. Mesmo que essa proporção de tempo de extração pareça saudável, ela escancara uma realidade: se não investirmos agora em exploração de novas áreas, poderemos colocar em xeque a posição energética privilegiada conquistada com muito sacrifício nas últimas décadas.

As novas fronteiras

Diante do avanço do declínio produtivo mencionado, a Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas surgem hoje como as alternativas mais pragmáticas de expansão da fronteira exploratória brasileira. Ambas compartilham características comuns: localização offshore, grande extensão ainda pouco perfurada, analogias geológicas relevantes com descobertas recentes no exterior e potencial para reposicionar o país no médio e longo prazo em termos de reservas e produção.

Na Margem Equatorial, o interesse deriva diretamente de analogias com as bacias do Atlântico Equatorial africano, onde descobertas significativas vêm sendo confirmadas nos últimos anos. Estendendo-se do Amapá ao Rio Grande do Norte, essa província permanece, praticamente, inexplorada no Brasil, mas apresenta sistemas petrolíferos comparáveis aos de países como Guiana e Suriname. Estimativas preliminares indicam volumes expressivos, capazes de alterar a trajetória futura da produção nacional.

Paralelamente, a Bacia de Pelotas, no extremo sul do Brasil, avança de forma mais tímida, porém concreta. Com cerca de 41 mil km² ao longo do litoral do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a região passa a ter um foco, principalmente, pelas descobertas de classe mundial na Namíbia, com a qual compartilha origem geológica ligada ao antigo supercontinente milhões de anos atrás. No leilão de 2023, 44 blocos foram arrematados por grandes operadoras, com compromissos mínimos de investimento da ordem de R$ 1,5 bilhão. Em 2024, iniciaram‑se relevantes estudos sísmicos, e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) já sinalizou a oferta de novos blocos no futuro. Estimativas de especialistas apontam um potencial superior a 15 bilhões de barris, ainda dependente de confirmação exploratória, mas suficiente para recolocar a Bacia de Pelotas no centro das discussões estratégicas do setor.

Os desafios e oportunidades das novas fronteiras

Por mais que as promessas pareçam interessantes, o período entre o início da exploração e o primeiro óleo pode durar algo entre sete a dez anos, ou mais, considerando sísmicas, perfurações, licenciamento e desenvolvimento de campos. Esse intervalo, combinado com o declínio da produção brasileira a partir de 2030, cria uma janela de risco que não pode ser desprezada. É essa lógica que explica o posicionamento antecipado de grandes operadoras nas novas fronteiras: não se trata de produção imediata, mas de garantir que, o que chamamos acima de indústria de reposição de reservas, permaneça ativa e garanta a sustentabilidade dos negócios para além de 2035. Como alerta o IBP, sem abertura de novas fronteiras e estabilidade regulatória, o Brasil corre o risco de voltar a ser importador de petróleo.

O Brasil precisa capturar o valor dessas reservas enquanto a demanda global por petróleo ainda existe de forma acentuada. Estudos indicam que esse pico será alcançado nos próximos cinco a dez aos anos, o que reforça a urgência das decisões atuais. No entanto, os obstáculos são relevantes: o licenciamento ambiental incerto, a fragilidade logística e de infraestrutura na Margem Equatorial, e, principalmente, a necessidade de previsibilidade regulatória e tributária. O desgaste dos debates sobre os novos impostos de exportação de petróleo não ajuda em nada o caso.

Apesar desses obstáculos, o potencial econômico e estratégico das novas fronteiras é inegável. A Margem Equatorial pode transformar economias regionais, enquanto Pelotas e a própria região oferecem uma ampla agenda de oportunidades para a indústria fornecedora e para o desenvolvimento tecnológico nacional. O avanço dessas fronteiras extrapola o debate setorial: trata‑se de uma questão de soberania energética, de mitigação de riscos geopolíticos e de preservação da capacidade do Estado brasileiro de decidir seu próprio futuro energético.

Por fim, a indústria petrolífera possui ciclos longos, e as decisões tomadas agora terão efeitos permanentes na próxima década. A Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas não são apostas especulativas, mas respostas estratégicas a um desafio já diagnosticado: o avanço do declínio das bacias maduras. O Brasil reúne geologia privilegiada, tecnologia de ponta, uma operadora de escala global muito competente e um mercado internacional ainda disposto a absorver petróleo em custos competitivos e intensidade reduzida de carbono (outro ponto positivo do nosso petróleo). O que parece faltar é agilidade regulatória, incluindo a política ambiental e uma maior previsibilidade jurídica tributária. Perder esse timing significaria trocar uma posição prioritária no setor por dependência futura de importação. O tempo está passando, e é melhor aproveitarmos o agora, pois poderemos chegar atrasados à dinâmica geopolítica econômica do petróleo num futuro próximo.

*Bruno Bressan Marcondes é sócio-líder de petróleo e gás da KPMG no Brasil.

 

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