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Projeto propõe transformar lixo eletrônico em fonte de minerais críticos

O Brasil produz mais de 2,4 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos por ano, mas ainda aproveita pouco o potencial econômico desses materiais. Parte significativa dos equipamentos descartados permanece armazenada em residências ou é destinada de forma inadequada, ampliando impactos ambientais e desperdiçando recursos valiosos.

Diante desse cenário, o Projeto RECUPER3, coordenado pelo Centro de Tecnologia Mineral com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, apresenta o diagnóstico mais abrangente já realizado sobre a cadeia de resíduos eletroeletrônicos no país. A iniciativa também propõe modelos de negócio para transformar esse passivo em uma nova fronteira de fornecimento de insumos estratégicos.

Equipamentos como celulares, computadores e baterias descartados contêm minerais críticos — entre eles lítio, cobalto, ouro, platina e paládio — cuja demanda global cresce impulsionada pela transição energética. O estudo classifica esses resíduos como “minas urbanas”, ou seja, fontes secundárias de matérias-primas que ainda são subaproveitadas no Brasil.

Segundo a pesquisadora do CETEM e coordenadora do projeto, Dra. Lúcia Helena Xavier, o país desperdiça uma oportunidade relevante ao não reciclar esses materiais de forma estruturada. “Cada equipamento descartado de forma incorreta carrega minerais que o Brasil ainda importa a custos elevados. Com rastreabilidade, processamento nacional e políticas adequadas, a mineração urbana pode fortalecer a indústria e a soberania tecnológica”, afirma.

Estudo de campo revela hábitos e gargalos

A pesquisa de campo, realizada entre julho de 2024 e março de 2025, ouviu 1.426 consumidores e mapeou os principais agentes da cadeia, incluindo comerciantes, catadores, recicladores, assistências técnicas, centros de recondicionamento e órgãos ambientais.

Um dos principais achados foi o chamado “índice de retenção domiciliar”: 81,2% dos brasileiros mantêm equipamentos eletrônicos obsoletos em casa por longos períodos. Em muitos casos, esses itens contêm substâncias tóxicas como chumbo, mercúrio e cádmio, o que representa riscos ambientais e à saúde.

O levantamento também identificou entraves estruturais relevantes:

  • insuficiência de Pontos de Entrega Voluntária (PEVs);
  • baixa adesão do varejo às regras do Decreto nº 10.240/2020;
  • desigualdade na capacidade institucional dos órgãos ambientais entre os estados;
  • falhas na integração de sistemas de monitoramento.

Para enfrentar esses desafios, o projeto recomenda ações que incluem educação da população, harmonização regulatória e investimentos em tecnologias nacionais de reciclagem e refino.

Estrutura técnica e propostas

O RECUPER3 foi estruturado em cinco volumes técnicos que abordam diferentes dimensões da cadeia:

  • Agentes e modelos de negócio: identificação de 13 atores-chave e 8 modelos estruturados
  • Estudos de campo: análise empírica das práticas atuais
  • Tecnologias: avaliação de rotas de revalorização (piro, hidro e biometalurgia)
  • Potencial de circularidade: metodologia com base em tipologias de materiais
  • Arranjos produtivos locais: desenvolvimento de ecossistemas regionais

Avanços regulatórios e perspectivas

O projeto se apoia em um ambiente regulatório em evolução, iniciado com a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Entre os avanços recentes estão o Decreto nº 11.413/2023, que instituiu os créditos de logística reversa, e a Lei nº 15.088/2025, que flexibiliza a importação de resíduos para reaproveitamento industrial.

A expectativa é que a consolidação desse marco legal, aliada às diretrizes propostas pelo RECUPER3, impulsione o desenvolvimento da economia circular de alta tecnologia no Brasil.

 

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